O meu verão no inverno
Sou como todas as pessoas: vejo o mundo da maneira que desejava que as coisas acontecessem, e não da maneira que as coisas realmente acontecem.
Há bastante deslealdade, ódio, violência, absurdo no ser humano comum para suprir qualquer exército em qualquer dia. E o melhor no assassinato são aqueles que pregam contra ele. E o melhor no ódio são aqueles que pregam amor, e o melhor na guerra, são aqueles que pregam a paz. Aqueles que pregam Deus precisam de Deus, aqueles que pregam paz não têm paz, aqueles que pregam amor não têm amor. Cuidado com os pregadores, cuidado com os sabedores. Cuidado com aqueles que estão sempre lendo livros. Cuidado com aqueles que detestam pobreza ou que são orgulhosos dela. Cuidado com aqueles que elogiam fácil, porque eles precisam de elogios de volta. Cuidado com aqueles que censuram fácil, eles têm medo daquilo que não conhecem. Cuidado com aqueles que procuram constantes multidões, eles não são nada sozinhos. Cuidado com o homem comum, com a mulher comum, cuidado com o amor deles. O amor deles é comum, procura o comum, mas há genialidade em seu ódio, há bastante genialidade em seu ódio para matar você, para matar qualquer um. Sem esperar solidão, sem entender solidão eles tentarão destruir qualquer coisa que seja diferente deles mesmos.
— Charles Bukowski  

E com o passar dos dias eu ia perdendo cada vez mais a minha fé na humanidade, eu me dava conta de que os humanos eram lastimáveis e não mereciam de maneira alguma as minhas lágrimas. Mesmo assim eu chorava, sentia uma pontada incerta de ódio, ficava sem saber se odiava a humanidade ou se apenas me sentia extremamente magoado para saber diferenciar os meus sentimentos. Tudo que se sabia é que eu não queria confiar em mais ninguém.
O Mundo Cinzento.   

Às vezes é bom não ter ninguém, porque assim ninguém te machuca, ninguém te engana, ninguém te ilude e ninguém vai embora.
Capitule.  

Fui à biblioteca e tentei encontrar livros sobre o que fazia com que as pessoas se sentissem do jeito que eu estava me sentindo, mas os livros não estavam lá, ou, se estavam, eu não podia compreendê-los. Ir até a biblioteca não era nada fácil: todos pareciam tão confortáveis, os bibliotecários, os leitores, todos menos eu.
Charles Bukowski,  Ao Sul de Lugar Nenhum

Acorrento o olhar ás estrelas que vazam da janela enquanto diluo junto a saliva meio copo de vinho barato, trago os isqueiro de modo a beijar as faíscas que escorrem do meu cigarro, vazio, vácuo onde a luz não se propaga, eu tenho ódio desta fé tanta que leva as crianças para a igreja, eu tenho raiva deste Deus esculpido em esteriótipos e preconceitos, deste tom irônico carregado pelo meu violão vocal, enquanto ouço The Pixies, quero barulho e dor para ter certeza que não me entreguei a inercia da vegetação, meu corrimento oscila nos toques febris que arranho a parede, eu deveras iria morrer, nesta sensação de inchaço, quente, frio, dopada pelo doce que se tornou amargo entre meus dentes alvos, ácidos, torcidos em um sorriso forçado, minhas lágrimas tombam em meu ventre, eu não te queria aqui comigo, me exilem entre este toque de recolher e o próximo holocausto, me deprava neste inferno santo que não se chama estabilidade, eu odeio gente expansiva, eu odeio o alto teor de falta de senso, falta de tato, que me controlem, que não me amem o bastante, eu juro que queria que isto aqui calhasse em sentido, que meu dedos parassem de buscar a janela aberta e o curto circuito que me torraria a mente, o vazio hibrido do vácuo que não propaga nem o eco dos meus sussurros. Eu queria ter janelas no hospício que me encontro, no paraíso que enlouqueço, eu odeio igrejas, eu odeio este capitalismo tão platônico, e quero apenas que tudo se exploda enquanto eu me enrolo no meu manto destinado a pele.
Larissa Céu

O importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam.
Guimarães Rosa 

O controle do passado implica aceitar o que lhe foi dado e tirado. Todos os acontecimentos se inserem numa ordem causal da natureza, assim como você, portanto, nada poderia ter acontecido de outra forma, nada poderia ter sido diferente, não adianta lamentar-se. Por isso a exortação de apropriar-se do que aconteceu nos torna capaz de seguir adiante.
Nietzsche. 

Arabella não entende minha necessidade de escrever. O gozo quente da alma é ejaculado na poesia. Se ilude quem quer, até um cego pode ver que estou a beira da loucura. Me tranco num quarto escuro que agora chamo de caverna. Na minha caverna sou rei, o todo poderoso, o tal. Jorro versos aos montes no papel. Vinho é como uma chave de portal que libera a poesia presa em minhas entranhas. Pena que estou cada vez mais escasso, mais cansado e ela não entende que é a fonte de todo meu desespero e minha paz também. Arabella, me perdoe, eu só quero ser seu.
Amsterdã, 1957. 

Quem sempre vive no calor e plenitude do coração , por assim dizer, na atmosfera de verão da alma, não pode imaginar o tremor de arrebatamento que assalta as naturezas mais invernais, quando excepcionalmente são tocadas pelos raios de amor e ar morno de um ensolarado dia de fevereiro.
— Friedrich Nietzsche 

Procura-se um amigo. Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor… Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar. Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer. Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim. Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.
Carlos Drummond de Andrade. 

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